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Quando as preocupações do mundo sufocam a Palavra de Deus

Foto do escritor: Karla Peluci
Karla Peluci
há 10 horas
9 min de leitura

“A Noite Estrelada” (The Starry Night), Vincent van Gogh, 1889.

Outras ainda, como a semente lançada entre espinhos, ouvem a palavra; mas, quando chegam as preocupações desta vida ...... sufocam a palavra, tornando-a infrutífera.” — Marcos 4:18–19 (trecho, NVI)

1. Quando o coração se torna um terreno ocupado demais

Na parábola do semeador, Jesus nos apresenta quatro tipos de solo. Mas existe um deles que merece uma atenção especial quando pensamos na maneira como temos vivido: o solo onde a semente cresce entre os espinhos.

Observe algo importante: naquele terreno, a semente não deixou de germinar. Ela encontrou terra, começou a crescer, mas havia algo crescendo junto com ela.

Os espinhos.

E, aos poucos, aquilo que deveria produzir frutos foi sendo sufocado.

Jesus explica que esses espinhos representam, entre outras coisas, as preocupações desta vida.

E aqui encontramos uma reflexão profunda para os nossos dias.

Quantas vezes começamos a manhã com o desejo sincero de estar na presença de Deus, de ler Sua Palavra, de alimentar nossa fé, mas, antes mesmo de dedicarmos tempo ao Senhor, já estamos mergulhados nas notícias, nas redes sociais, nos acontecimentos políticos, nas discussões e nas indignações do mundo?

Abrimos o celular para saber o que aconteceu e, quando percebemos, já se passaram trinta minutos, uma hora, talvez mais.

Nossa mente já está ocupada. Nosso coração, inquieto. Nossos pensamentos, tomados por preocupações que muitas vezes não temos poder para resolver.

E a Palavra de Deus, que deveria encontrar um terreno preparado, encontra um coração cheio de espinhos.

Não necessariamente porque deixamos de amar a Deus, mas porque permitimos que outras coisas ocupassem o espaço que deveria ser prioritariamente dEle.


2. O perigo de alimentar a indignação todos os dias

Vivemos um tempo em que somos constantemente convidados a nos indignar.

A cada notícia, uma nova denúncia. A cada publicação, uma nova discussão. A cada opinião contrária, uma nova oportunidade de sentir revolta.

E quando temos convicções fortes sobre justiça, honestidade, liberdade e responsabilidade, é natural que determinadas situações nos incomodem profundamente.

Mas precisamos fazer uma pergunta espiritual muito importante:

Até que ponto a minha indignação continua sendo um compromisso com a justiça e em que momento ela começa a se transformar em alimento para a ira?

A Bíblia nos ensina:

“Quando vocês ficarem irados, não pequem. Apazigúem a sua ira antes que o sol se ponha.” — Efésios 4:26 (NVI)

Perceba que a Bíblia não afirma que toda indignação é pecado.

O próprio Jesus demonstrou indignação diante da hipocrisia e da injustiça.

Entretanto, existe uma diferença entre sentir indignação diante do mal e permitir que essa indignação governe nossos pensamentos, nossas palavras e nossas emoções.

Podemos começar defendendo valores legítimos e, sem perceber, terminar alimentando desprezo pelas pessoas que pensam de maneira diferente.

Podemos desejar justiça e, aos poucos, perder a misericórdia.

Podemos defender a verdade e, no calor das discussões, deixar de demonstrar o amor que essa mesma verdade exige de nós.

Tiago nos faz uma advertência:

“Pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.” — Tiago 1:20 (NVI)

Que versículo necessário!

Nem toda reação que consideramos justa produz aquilo que Deus considera justo.

E talvez uma das maiores armadilhas espirituais dos nossos dias seja esta: acreditarmos que, porque estamos defendendo algo correto, qualquer sentimento que cultivamos durante essa defesa também está correto.

Mas não está.

Deus não observa apenas aquilo que defendemos. Ele também observa o espírito com que fazemos isso.

3. Quando aquilo que combatemos começa a nos transformar

Existe um perigo silencioso em permanecer continuamente exposto àquilo que desperta nossa revolta.

Começamos a enxergar o mundo quase exclusivamente por meio dos seus conflitos.

Passamos a esperar sempre o pior.

Desenvolvemos impaciência com quem pensa diferente.

E, sem perceber, aquilo que tanto criticamos nos outros começa a produzir em nós sentimentos que também precisam ser tratados por Deus.

É possível condenar a intolerância e nos tornarmos intolerantes.

É possível denunciar o ódio e, lentamente, cultivar ódio.

É possível defender princípios cristãos e, durante essa defesa, negligenciar justamente os frutos que deveriam caracterizar nossa vida cristã.

Em Gálatas 5:22–23, Paulo descreve o fruto do Espírito:

Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Agora, uma pergunta que precisamos fazer a nós mesmos:

Quando termino de passar uma hora acompanhando discussões políticas, quais desses frutos estão mais presentes em mim?

Estou mais paciente?

Mais amorosa?

Mais serena?

Mais disposta a compreender?

Ou estou mais irritada, ansiosa, desconfiada e intolerante?

Essa resposta pode revelar muito sobre o tipo de alimento que tenho oferecido à minha alma.

Porque aquilo que alimentamos cresce.

E aquilo que cultivamos diariamente acaba moldando nosso coração.


4. Nem tudo o que acontece no mundo precisa acontecer dentro de nós

FILIPENSES 4:6–8

O apóstolo Paulo nos ensina a não viver dominados pela ansiedade, mas a apresentar nossas preocupações a Deus em oração.

Logo depois, ele nos orienta a ocupar nossos pensamentos com aquilo que é verdadeiro, nobre, correto, puro, amável e digno de louvor.

Essa orientação não significa ignorar os problemas do mundo.

Não significa fechar os olhos para a corrupção, para a injustiça ou para o sofrimento humano.

Significa compreender que podemos estar conscientes da realidade sem permitir que ela governe nossa vida interior.

Podemos acompanhar a política sem viver emocionalmente aprisionados por ela.

Podemos defender nossos valores sem transformar cada divergência em uma batalha.

Podemos expressar nossas opiniões sem sentir necessidade de responder a tudo, convencer a todos ou corrigir cada pessoa que consideramos equivocada.

Existe uma liberdade espiritual muito grande em compreender que nem toda discussão exige nossa participação.

Nem toda notícia merece nossa atenção prolongada.

Nem toda provocação merece uma resposta.

E nem toda injustiça que testemunhamos está ao alcance da nossa intervenção imediata.

O Salmo 46:10 nos traz uma orientação:

“Aquietem-se e saibam que eu sou Deus.” — Salmos 46:10 (NVI)

Esse versículo não é um convite à passividade, mas ao reconhecimento da soberania divina.

Deus continua sendo Deus quando as notícias são ruins.

Deus continua sendo Deus quando governantes falham.

Deus continua sendo Deus quando a injustiça parece prevalecer.

E Deus não precisa que carreguemos sobre nossos ombros o peso de controlar aquilo que pertence à Sua soberania.

Nossa responsabilidade é agir com fidelidade naquilo que nos cabe, sem permitir que a preocupação com aquilo que não controlamos nos roube a paz.


5. O que estamos deixando de cultivar enquanto alimentamos os espinhos?

Voltemos à parábola do semeador.

O problema do terreno cheio de espinhos não era a ausência da semente.

Era a competição pelo espaço.

E talvez essa seja a reflexão mais importante deste devocional.

Quanto tempo dedicamos diariamente às coisas que nos inquietam?

E quanto tempo dedicamos àquilo que verdadeiramente fortalece nossa vida espiritual?

Quanto tempo passamos lendo opiniões de pessoas que sequer conhecemos, enquanto deixamos de dedicar alguns minutos à leitura da Palavra?

Quantas vezes permitimos que uma notícia estrague nosso humor, prejudique nossa tranquilidade e roube a atenção que poderíamos oferecer à nossa família?

Quantas vezes estamos fisicamente presentes em casa, mas emocionalmente envolvidos em conflitos que acontecem muito longe de nós?

Como mulheres, esposas e mães, temos responsabilidades preciosas diante de Deus.

Temos uma família para amar, um lar para cultivar, relacionamentos para fortalecer, um filho para orientar, uma vida espiritual para desenvolver.

E tudo isso também exige atenção, presença e disponibilidade emocional.

Não podemos permitir que a preocupação com os rumos de uma nação nos faça negligenciar a paz e os valores que desejamos cultivar dentro da nossa própria casa.

Jesus nos ensina:

“Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.” — Mateus 6:33 (NVI)

Observe que Jesus não diz para buscarmos somente o Reino.

Ele diz para buscarmos o Reino em primeiro lugar.

Essa é a diferença.

Podemos nos interessar por política, acompanhar os acontecimentos, defender princípios e exercer nossa cidadania.

Mas nada disso deve ocupar o trono do nosso coração.

Esse lugar pertence somente a Deus.


6. A verdadeira batalha também acontece dentro de nós

Há algo que precisamos reconhecer com humildade: é muito mais fácil identificar os erros do mundo do que perceber os espinhos que crescem dentro do nosso próprio coração.

É fácil reconhecer a arrogância dos outros.

Mais difícil é perceber quando nós mesmos nos tornamos arrogantes.

É fácil condenar a falta de amor.

Mais difícil é perceber quando deixamos de amar aqueles que discordam de nós.

É fácil desejar que Deus transforme uma nação.

Mas será que temos permitido que Ele transforme diariamente nossos pensamentos, nossas reações e nossos sentimentos?

Davi fez uma oração que deveria fazer parte da nossa rotina:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações.” — Salmos 139:23 (NVI)

Talvez, antes de pedirmos que Deus transforme o coração das pessoas que consideramos equivocadas, precisemos pedir que Ele examine o nosso.

Não para abandonarmos nossas convicções.

Mas para que nossas convicções nunca sejam maiores do que nossa obediência a Cristo.

Não para nos tornarmos indiferentes à injustiça.

Mas para que a luta contra a injustiça não destrua nossa capacidade de amar.

Não para deixarmos de participar dos acontecimentos do mundo.

Mas para que o mundo não ocupe o espaço que pertence ao Senhor.


7. Reflexão pessoal — Que tipo de solo tenho oferecido a Deus?

Hoje, diante desta Palavra, quero fazer uma avaliação sincera da minha vida.

Talvez eu esteja dedicando atenção demais àquilo que não consigo mudar e atenção de menos àquilo que Deus me confiou para cuidar.

Talvez eu esteja alimentando minha mente com notícias, opiniões, conflitos e preocupações que, embora importantes, não deveriam consumir tanto da minha paz.

Talvez eu precise aprender que não é minha responsabilidade convencer todas as pessoas, corrigir todos os erros ou carregar todas as injustiças do mundo.

Deus me chama a ser luz, mas não me chama a viver consumida pela escuridão.

Ele me chama a defender a verdade, mas não a perder o amor.

Ele me chama a praticar a justiça, mas não a alimentar a ira.

Ele me chama a participar do mundo, mas não a permitir que o mundo domine meu coração.

E talvez o maior sinal de maturidade espiritual não seja o quanto consigo identificar o mal ao meu redor, mas o quanto consigo impedir que esse mal encontre espaço dentro de mim.

Quero que a Palavra de Deus encontre em mim uma terra fértil.

Quero produzir frutos de paz, sabedoria, domínio próprio e amor.

Quero aprender a me informar sem me intoxicar emocionalmente, a discordar sem desprezar e a agir sem perder a serenidade.

Porque, no final, não será a quantidade de discussões que participei ou de opiniões que publiquei que revelará a profundidade da minha fé.

Serão os frutos que minha vida produziu.


Minha oração

Senhor meu Deus e meu Pai,

Hoje me coloco diante de Ti reconhecendo que, muitas vezes, tenho permitido que as preocupações deste mundo ocupem um espaço muito grande dentro de mim.

Tu conheces meu coração, Senhor. Conheces minhas convicções, meus valores, meu desejo de justiça, minha preocupação com o futuro da nossa nação e com o mundo que estamos deixando para nossos filhos.

Mas Tu também conheces minhas inquietações.

Sabes quantas vezes permito que as notícias roubem minha paz, que as injustiças despertem minha ira e que as opiniões contrárias alimentem sentimentos que não deveriam permanecer dentro de mim.

Pai, perdoa-me quando minha indignação ultrapassa os limites da sabedoria.

Perdoa-me quando me ocupo tanto em observar os erros dos outros que deixo de examinar o meu próprio coração.

Não permitas, Senhor, que a minha defesa da verdade me afaste do amor. Que meu desejo de justiça me faça perder a misericórdia. Que minha preocupação com o futuro me impeça de viver com gratidão o presente que Tu me deste.

Arranca do meu coração os espinhos que estão sufocando a Tua Palavra.

Ensina-me a discernir aquilo que merece minha atenção daquilo que apenas consome minha energia.

Dá-me sabedoria para saber quando falar e quando permanecer em silêncio.

Quando agir e quando simplesmente confiar.

Quando me posicionar e quando me afastar de discussões que não produzirão bons frutos.

Senhor, que eu não perca a beleza da vida que Tu me deste por estar excessivamente preocupada com as coisas deste mundo.

Que eu saiba valorizar meu lar, meu esposo, meu filho, minha família e todas as bênçãos que já recebi das Tuas mãos.

Que minha casa seja um lugar de paz, e não uma extensão das inquietações que vejo lá fora.

Ajuda-me a ensinar ao meu filho não apenas a importância de defender valores, mas também a importância de viver esses valores com humildade, sabedoria e amor.

Que ele encontre em mim um exemplo de fé equilibrada, de confiança na Tua soberania e de serenidade diante das adversidades.

Pai, eu Te entrego o futuro da nossa nação.

Entrego os governantes, as autoridades, as eleições e tudo aquilo que tantas vezes me preocupa.

Não quero ser indiferente, mas também não quero ser prisioneira dessas preocupações.

Que eu jamais me esqueça de que, acima de qualquer governo humano, existe um Deus soberano, justo e eterno.

Que minha esperança não esteja depositada em homens, partidos ou governos, mas em Ti.

Prepara o solo do meu coração, Senhor.

Que a Tua Palavra cresça, crie raízes profundas e produza frutos que permaneçam.

E que, ao final de cada dia, eu tenha alimentado mais a minha fé do que os meus medos, mais a minha esperança do que as minhas indignações e mais o meu amor do que a minha ira.

Em nome de Jesus,

Amém.

 
 
 

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